Manual Clínico Prático · 2026

Reposição de
Testosterona

Diagnóstico · Indicação · Farmacologia · Monitorização

Baseado no Estudo TRAVERSE (NEJM 2023)
AUA · Endocrine Society · EAU · Amo Resumos 2026
105 páginas de conteúdo · 7 partes · 3 casos clínicos comentados

Sumário

Parte I
Diagnóstico do Hipogonadismo

Quando Pensar em Hipogonadismo

O diagnóstico de hipogonadismo masculino é clínico e laboratorial. Nenhum dos dois, isoladamente, é suficiente. A presença de sintomas sem confirmação bioquímica — ou a testosterona baixa sem sintomas compatíveis — não justifica o início de terapia de reposição.

⚠ Princípio fundamental
Diagnóstico primeiro; testosterona depois. A TRT não é indicada para "otimização", estética ou para colocar a testosterona no limite superior do laboratório.

Critérios Diagnósticos

São necessários, simultaneamente:

  • Sintomas e/ou sinais compatíveis com deficiência androgênica
  • Testosterona total persistentemente baixa — idealmente confirmada em 2 dosagens matinais, em dias diferentes

Quadro Clínico

Tabela 1 — Sintomas e Sinais de Hipogonadismo Masculino
DomínioManifestaçõesEspecificidade
SexualRedução da libido, disfunção erétil, redução das ereções espontâneas/noturnasAlta
CorporalRedução de massa e força muscular, aumento de gordura corporal (visceral), ginecomastiaModerada
ÓsseoRedução da densidade mineral óssea, fraturas por fragilidadeModerada
MetabólicoAnemia normocítica, síndrome metabólica, resistência à insulinaModerada
NeuropsíquicoFadiga, irritabilidade, depressão, piora cognitiva, insôniaBaixa
📋 Nota clínica
Sintomas sexuais — em especial a redução de libido e das ereções espontâneas — têm maior especificidade diagnóstica. Sintomas neuropsíquicos isolados raramente são suficientes para indicar TRT.

Investigação Inicial

Figura 1 — Eixo Hipotálamo-Hipófise-Gonadal (HPG)

Fig. 1 — Eixo HPG e mecanismo de feedback
Hipotálamo GnRH pulsátil GnRH ↓ Hipófise Anterior LH · FSH LH ↓ FSH ↓ Células de Leydig Testosterona Células de Sértoli Inibina B Testículos Testosterona · Espermatogênese Ações periféricas feedback negativo
O eixo HPG regula a produção de testosterona por feedback negativo. Quando a testosterona exógena é introduzida, o feedback suprime LH e FSH, resultando em atrofia das células de Leydig e comprometimento da espermatogênese.

Painel Laboratorial Recomendado

Tabela 2 — Exames Pré-Diagnóstico e Pré-TRT
ExameObjetivo / ObservaçãoColeta ideal
Testosterona Total (TT)Exame inicial obrigatório — repetir se baixa7h–10h, jejum, 2x em dias diferentes
SHBGCalcula TT livre; importante na obesidade (SHBG ↓)Mesmo coleta
AlbuminaNecessária para cálculo da testosterona livre—
Testosterona Livre (FT)Calculada ou mensurada; útil em SHBG alteradoCalculada via fórmula Vermeulen
LH · FSHDiferencia primário (↑) de secundário (↓ ou inad. normal)—
ProlactinaHiperprolactinemia = causa de secundário; indica RM—
TSHHipotireoidismo pode simular hipogonadismo—
Hemograma / HematócritoSegurança: baseline e monitorização de eritrocitose—
PSAObrigatório pré-TRT em >40 anos—
Glicemia / HbA1cResistência à insulina é causa de hipogonadismo funcionalJejum
Perfil LipídicoRisco cardiovascular basalJejum
TGO · TGP · CreatininaClearance hepático e renal da testosterona—
EstradiolQuando há ginecomastia ou suspeita de aromatização excessiva—
💡 Dica clínica
A testosterona livre é particularmente útil quando a testosterona total está em zona limítrofe (250–350 ng/dL) ou quando há alteração expressiva do SHBG — especialmente em homens obesos (SHBG baixo) e idosos (SHBG alto).

Primário vs Secundário

A distinção etiológica determina não apenas a conduta, mas também a investigação subsequente e as opções terapêuticas alternativas.

Tabela 3 — Diferenciação Etiológica do Hipogonadismo
ParâmetroPrimário (Hipergonadotrófico)Secundário / Funcional
Testosterona Total↓↓
LH / FSH↑↑ (elevados)↓ ou inad. normais
Origem do problemaInsuficiência testicular primáriaEixo hipotálamo-hipofisário
Causas comunsOrquite, criptorquidia, varicocele, klinefelter, quimioterapia, radioterapia, traumaObesidade, AOS, opioides, glicocorticoides, hiperprolactinemia, anabolizantes prévios
Causas reversíveis?RaramenteCom frequência
Imagem da hipófiseNão obrigatóriaIndicada se: prolactina ↑, TT <150 ng/dL, déficits hipofisários múltiplos
Alternativa à TRTTRT é a primeira escolhaTratar causa de base primeiro
⚠ Armadilha frequente
LH "normal" em um paciente com TT baixa não é sinal tranquilizador. Em homens com hipogonadismo primário, o LH deveria estar elevado como resposta compensatória. Um LH "inadequadamente normal" diante de TT baixa caracteriza hipogonadismo secundário.
Parte II
Avaliação Pré-Tratamento

Avaliação de Segurança Pré-TRT

Antes de iniciar a terapia, um conjunto de avaliações de segurança é mandatório. A ausência dessas avaliações configura conduta inadequada, independentemente da indicação clínica.

Tabela 4 — Checklist Pré-TRT
ÁreaO que avaliarAção se alterado
HematológicaHematócrito basalHct ≥52% → investigar e corrigir antes
ProstáticaPSA + sintomas urinários (IPSS) + toque retal conforme idadePSA elevado ou suspeita → urologia antes
CardiovascularRisco CV, eventos recentes (<6 meses), PA, perfil lipídicoIAM/AVC <6 meses → adiar TRT
SonoSTOP-BANG, ronco, pausas, sonolência diurnaAOS grave não tratada → CPAP antes
FertilidadeDesejo de paternidade futura?SIM → não iniciar TRT convencional
OncológicaHistória de câncer de próstata ou mamaContraindicação relativa/absoluta
TrombóticaTVP prévia, trombofilia conhecidaAvaliar risco-benefício com hematologista

Fertilidade — Ponto Crítico

Este é, possivelmente, o tema mais subestimado na prática clínica. Médicos e pacientes frequentemente desconhecem o impacto da TRT sobre a espermatogênese.

Mecanismo de Supressão

🚫 Impacto obrigatório
A testosterona exógena suprime LH e FSH via feedback negativo hipotalâmico. Isso resulta em:
↓ LH → ↓ testosterona intratesticular → ↓ espermatogênese
↓ FSH → atrofia das células de Sértoli → azoospermia em 40–65% dos casos

Alternativas quando há Desejo de Fertilidade

Tabela 5 — Estratégias para Preservação da Fertilidade
EstratégiaMecanismoObservação
hCG (Gonadotrofina Coriônica)Mimetiza o LH → mantém testosterona intratesticularPode ser combinado com TRT ou usado isolado
ClomifenoSERM → bloqueia feedback → ↑ LH/FSH endógenosVia oral; menos eficaz em hipogonadismo primário
EnclomifenoIsômero ativo do clomifeno; menos efeitos estrogênicosOff-label; resultados promissores
Gonadotrofinas (FSH + hCG)Estimulação direta gonadalHipogonadismo hipogonadotrófico grave
Criopreservação de sêmenBancar antes de iniciar TRTSempre oferecer quando há dúvida

Contraindicações

Tabela 6 — Contraindicações à TRT
TipoCondição
AbsolutaCâncer de próstata confirmado ou suspeito não investigado
AbsolutaCâncer de mama masculino
AbsolutaDesejo de fertilidade imediata (sem estratégia alternativa)
RelativaHematócrito ≥54% — investigar e corrigir antes
RelativaEvento cardiovascular grave nos últimos 6 meses
RelativaAOS grave não tratada
RelativaInsuficiência cardíaca descompensada
RelativaPSA elevado sem investigação urológica adequada
RelativaTrombofilia ou TVP prévia sem avaliação especializada
Parte III
Farmacologia da Testosterona

Formulações Disponíveis

Fig. 2 — Curvas Farmacocinéticas das Formulações de Testosterona
1000 300 Normal 0 4 8 12 16 Semanas 1200 600 0 ng/dL Enantato/Cipionato q2s Undecanoato q12s Transdérmico diário
O gráfico demonstra os padrões farmacocinéticos de cada formulação. O enantato/cipionato administrado quinzenalmente gera picos suprafisiológicos e vales infraterapêuticos. O undecanoato e o transdérmico mantêm níveis mais estáveis dentro da faixa normal (300–1000 ng/dL, banda sombreada).
Tabela 7 — Comparação das Formulações de Testosterona
FormulaçãoVia / FrequênciaEstabilidadeAjusteCustoLimitações
Enantato / Cipionato IM · q1–2s Moderada Fácil Baixo Picos e vales; menor se q1s
Undecanoato de Testosterona IM · q10–14s Alta Difícil Alto Manejo específico; ajuste lento
Gel Transdérmico Tópico · diário Alta Fácil Moderado Absorção variável; transferência para parceiros/filhos
Adesivo Transdérmico Pele · diário Alta Fácil Moderado Irritação cutânea; disponibilidade limitada no BR

Objetivos e Metas da TRT

Princípio central
O objetivo da TRT é restaurar níveis fisiológicos de testosterona, melhorar sintomas e evitar efeitos adversos. Não é elevar a testosterona ao máximo possível.

TRT ≠ Ciclo de anabolizante. Doses suprafisiológicas não são reposição.

Metas Laboratoriais

  • Testosterona total: 400–700 ng/dL (meio da faixa fisiológica)
  • Hematócrito: manter <52%
  • PSA: aumento <1,4 ng/mL no primeiro ano ou <0,4 ng/mL em qualquer intervalo de 12 meses
  • Sintomas: melhora objetiva e subjetiva documentada
Parte IV
Monitorização e Segurança

Protocolo de Seguimento

Tabela 8 — Cronograma de Monitorização
MomentoExames / AvaliaçãoObjetivo
Baseline (pré-TRT)Painel completo (Tab. 2) + IPSS + PA + ECG conforme riscoEstabelecer parâmetros; excluir contraindicações
3 mesesTT (coleta no vale, 1–2d antes da próxima dose se injetável) · Hct · SintomasVerificar eficácia e segurança inicial
6 mesesTT · Hct · PSA (se >40 anos) · PA · LipídiosAjuste de dose; primeira avaliação prostática
12 mesesPainel completo · PSA · toque retal conforme indicação · DMO se osteoporoseReavaliação anual completa
Anual (manutenção)TT · Hct · PSA · Sintomas · PA · Perfil metabólicoVigilância contínua
💉 Timing da coleta para injetáveis
Em formulações injetáveis de curta duração (enantato/cipionato), coletar a testosterona no vale — 24–48h antes da próxima injeção. Isso evita interpretar um pico como adequado quando o paciente ficará hipogonádico antes do próximo pico.

Hematócrito — Marcador Central de Segurança

A eritrocitose é o efeito adverso mais clinicamente relevante da TRT. A testosterona estimula a eritropoiese via EPO renal e ação direta na medula óssea.

🔴 Limite de ação imediata
Hematócrito ≥ 54%: interromper ou reduzir TRT, investigar causas concomitantes, considerar flebotomia terapêutica após avaliação.

Investigação da Eritrocitose em TRT

  • Apneia obstrutiva do sono (AOS) — principal causa concomitante
  • Tabagismo e doença pulmonar obstrutiva crônica
  • Hipóxia crônica (altitude, cardiopatia)
  • Desidratação
  • Dose excessiva de testosterona
  • Policitemia vera (rara — excluir com JAK2)
Tabela 9 — Conduta por Nível de Hematócrito
HematócritoConduta Recomendada
< 48%Continuar TRT conforme protocolo
48 – 51%Monitorizar com mais frequência (3/3 meses); investigar AOS e tabagismo
52 – 53%Reduzir dose ou aumentar intervalo; tratar causas secundárias
≥ 54%Suspender TRT; investigar todas as causas; flebotomia se sintomático; reiniciar com dose menor após normalização

Próstata e PSA

A relação entre TRT e câncer de próstata foi historicamente superestimada. A evidência atual não apoia a hipótese de que a TRT causa câncer de próstata de novo, mas pode estimular tecido prostático pré-existente e acelerar a manifestação de doença subclínica.

Critérios de Alerta para PSA em TRT

⚠ Critérios de encaminhamento urológico
  • PSA > 4,0 ng/mL em qualquer momento
  • Aumento > 1,4 ng/mL no primeiro ano de TRT
  • Aumento > 0,4 ng/mL em qualquer intervalo de 12 meses
  • Velocidade de PSA > 0,75 ng/mL/ano
  • Sintomas urinários obstrutivos novos ou progressivos

O PSA pode elevar-se discretamente (0,3–0,5 ng/mL) nos primeiros meses de TRT — essa elevação é considerada esperada. O que importa é a velocidade e o padrão de elevação, não apenas o valor absoluto.

Risco Cardiovascular e Estudo TRAVERSE

📋 TRAVERSE — Mensagem Central

O estudo TRAVERSE (New England Journal of Medicine, 2023) avaliou 5.246 homens com hipogonadismo e alto risco cardiovascular, randomizados para TRT gel vs. placebo por uma mediana de 22 meses.

Resultado primário: TRT não aumentou o risco do desfecho cardiovascular composto (MACE — morte cardiovascular, IAM não fatal, AVC não fatal) na população estudada.

Importante: houve aumento de fibrilação atrial, TEP e TVP nos homens em TRT. O resultado não valida o uso para "saúde cardiovascular" — valida a segurança quando corretamente indicado e monitorado.

Interpretação Correta

  • TRT não protege o coração
  • TRT, quando corretamente indicada, não causa infarto (na população estudada)
  • Eventos específicos (FA, TEP) merecem atenção — especialmente em pacientes de alto risco
  • Pacientes com IAM/AVC recente (<6 meses) foram excluídos do TRAVERSE — não há dados de segurança para esse grupo
Parte V
Desfechos Clínicos

Benefícios Esperados

Tabela 10 — Benefícios da TRT por Grau de Evidência
DesfechoConsistência da evidência
Libido e função sexualAlta
Ereções espontâneas e noturnasAlta
Massa muscular magraAlta
Densidade mineral ósseaAlta
Anemia relacionada ao hipogonadismoAlta
Composição corporal (↓ gordura visceral)Moderada
Força muscularModerada
Humor e sensação de energiaModerada
Longevidade / anti-agingNão demonstrado
Prevenção cardiovascularNão demonstrado
Ganho muscular comparável a anabolizantesNão esperado em doses fisiológicas

Efeitos Adversos

Tabela 11 — Efeitos Adversos da TRT
Efeito AdversoFrequênciaConduta
Eritrocitose / policitemiaComum (até 25%)Ver Cap. 10
Supressão da espermatogêneseMuito comumDiscutir pré-TRT; hCG se necessário
Redução do volume testicularComumInformar paciente; hCG pode atenuar
Acne e oleosidadeComumAjuste de dose; cuidados locais
GinecomastiaIncomumVerificar estradiol; reduzir dose
Edema periféricoIncomumVerificar insuficiência cardíaca
Piora de AOSPossívelTratar AOS antes ou simultaneamente
Alteração do PSAComum (leve)Monitorizar conforme protocolo
Fibrilação atrial / TEPRisco aumentado (TRAVERSE)Atenção em pacientes de alto risco
Parte VI
Algoritmo Clínico

Fluxograma de Decisão Clínica

Fig. 3 — Algoritmo para Diagnóstico e Indicação de TRT
PACIENTE COM SINTOMAS suspeitos de hipogonadismo Testosterona Total Matinal 7h–10h · jejum Baixa? <300 ng/dL Não → Reavaliar Sim Repetir dosagem 2ª coleta em dia diferente LH · FSH · SHBG · FT · Prolactina Identificar e tratar causas reversíveis Deseja fertilidade? Sim → hCG / SERMs Evitar TRT convencional Não Avaliação de Segurança PSA · Hct · Risco CV · Próstata · AOS Tratar contraindicações antes de prosseguir INICIAR TRT escolher formulação + dose inicial Reavaliar em ~3 meses TT · Hct · PSA · sintomas Ajustar dose / formulação Seguimento anual contínuo
Fluxograma baseado nas diretrizes da AUA 2018 e Endocrine Society 2018, atualizado com dados do TRAVERSE (2023). Adaptado com foco na prática clínica brasileira.
Parte VII
Casos Clínicos Comentados
01
Hipogonadismo Secundário Funcional + AOS + Obesidade
Homem · 48 anos
Apresentação e Exames
Queixas: ↓ libido (1 ano) · piora de ereções · fadiga · ↓ desempenho físico · ↑ gordura abdominal
STOP-BANG: 6/8 · Ronco + pausas relatadas pela esposa
IMC: 32 kg/m² · HbA1c: 6,2% · PA: não citada

Hormônios (7h30, jejum):
TT (1ª) ........ 218 ng/dL
TT (repetição) . 231 ng/dL
SHBG ........... 18 nmol/L (baixo)
Albumina ....... 4,4 g/dL
LH ............. 2,1 UI/L
FSH ............ 2,4 UI/L
Prolactina ..... 11 ng/mL (normal)
TSH ............ 2,1 mUI/L (normal)
Hct ............ 48,7%
PSA ............ 1,1 ng/mL
1. Fecha diagnóstico?
Sim, com boa sustentação. TT <300 em 2 coletas matinais + sintomas compatíveis. Detalhe crítico: SHBG=18 em obeso → calcular testosterona livre antes de interpretar a magnitude da deficiência.
2. Primário ou Secundário?
Secundário/Funcional. TT↓ + LH/FSH baixos/inadequadamente normais. Se fosse primário, esperaríamos LH/FSH elevados como resposta compensatória. Aqui, o eixo não responde → problema hipotalâmico-hipofisário.
3. Iniciaria TRT agora?
NÃO imediatamente. O caso esconde uma armadilha: AOS grave (STOP-BANG 6/8 + pausas) é causa reversível de hipogonadismo secundário funcional. A sequência correta: tratar AOS + reduzir peso → reavaliar eixo hormonal. Se após isso TT persistir baixa, aí TRT é defensável.
4. A armadilha
Prescrever testosterona → TT=600 → paciente refere melhora → Hct sobe para 54,5%. Agora o clínico criou um problema (eritrocitose + AOS não tratada) que talvez pudesse ter sido evitado tratando os fatores modificáveis antes.
5. Conduta ideal
  • Polissonografia / teste domiciliar para AOS
  • CPAP se AOS confirmada
  • Perda de peso (GLP-1 se indicado, dado HbA1c 6,2%)
  • Calcular testosterona livre (SHBG baixo altera interpretação)
  • Reavaliação em 3–6 meses; se TT persistir baixa → TRT com monitorização rigorosa do Hct
02
Hipogonadismo Primário + IAM Recente + Eritrocitose
Homem · 56 anos
Apresentação e Exames
Queixas: ↓ libido · ↓ massa muscular · fadiga · piora de ereções
IAM há 4 meses · Clinicamente estável
Medicações: estatina · AAS · betabloqueador
IMC: 27 · Ronca, AOS não investigada · Não fumante

TT (1ª) ........ 178 ng/dL
TT (repetição) . 184 ng/dL
LH ............. 24 UI/L (ELEVADO)
FSH ............ 31 UI/L (ELEVADO)
SHBG ........... 42 nmol/L
Prolactina ..... normal
Hct ............ 55,8% ⚠
PSA ............ 2,1 ng/mL
HbA1c .......... 5,7%
1. Diagnóstico Etiológico
Hipogonadismo Primário (Hipergonadotrófico). TT↓ + LH/FSH ↑↑ = insuficiência testicular primária. Investigar: orquite prévia, varicocele, criptorquidia, quimioterapia prévia, genetica (síndrome de Klinefelter).
2. Iniciaria TRT?
NÃO. Dois grandes problemas independentes:
🔴 Hct = 55,8% — já acima do limite de intervenção sem TRT exógena ainda.
🔴 IAM há 4 meses — dentro da janela de 6 meses pós-evento cardiovascular agudo.
3. O que fazer?
  • Investigar eritrocitose: AOS (alta suspeita), hipóxia, eritrocitose primária (JAK2)
  • Estudo do sono urgente
  • Seguimento cardiológico; otimizar risco CV
  • Reavaliação: após ≥6 meses do IAM + Hct normalizado + AOS tratada → discutir TRT
Lição Central do Caso
Diagnóstico correto ≠ indicação imediata de tratamento.
A sequência correta é sempre: diagnóstico → contraindicações/riscos → corrigir riscos → tratar quando seguro.
03
Elevação de PSA em Paciente em TRT
Homem · 49 anos · em TRT há 10 meses
Dados Comparativos: Antes x Depois de TRT
PRÉ-TRT
TT ......... 205 ng/dL
LH ......... 1,8 UI/L
FSH ........ 2,1 UI/L
PSA ........ 0,8 ng/mL
Hct ........ 43%
10 MESES DE TRT
TT ......... 540 ng/dL ✓
PSA ........ 2,4 ng/mL ⚠
Hct ........ 47%
Sintomas ... estável, bem
O PSA é Preocupante?
Sim. A armadilha aqui é: "PSA < 4 = está tudo bem".

Aumento absoluto: 0,8 → 2,4 = +1,6 ng/mL em 10 meses.
Critério de alerta das diretrizes: aumento >1,4 ng/mL no primeiro ano → encaminhamento urológico obrigatório.
Conduta
  • Não suspender TRT imediatamente sem avaliação urológica
  • Encaminhar ao urologista com urgência moderada
  • Urologista solicitará: PSA livre/total, PSA-D, biópsia conforme risco
  • Se biópsia negativa e PSA estabilizado → retomar TRT com monitorização intensificada (PSA a cada 3 meses por 1 ano)
Ponto de Especialista
O PSA basal baixo (0,8 ng/mL) torna a velocidade de elevação ainda mais significativa. O valor absoluto pode ainda estar na "faixa normal" de laboratório, mas a cinética (>1 ng/mL por ano) é o que aciona a investigação.

Referências Bibliográficas

  • Lincoff AM, Bhasin S, Flevaris P, et al. Cardiovascular Safety of Testosterone-Replacement Therapy. N Engl J Med. 2023;389(2):107-117. doi:10.1056/NEJMoa2215025 [TRAVERSE Trial]
  • Mulhall JP, Trost LW, Brannigan RE, et al. Evaluation and Management of Testosterone Deficiency: AUA Guideline. J Urol. 2018;200(2):423-432. doi:10.1016/j.juro.2018.03.115
  • Bhasin S, Brito JP, Cunningham GR, et al. Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103(5):1715-1744. doi:10.1210/jc.2018-00229
  • Salonia A, Bettocchi C, Carvalho J, et al. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health. European Association of Urology; 2023. Disponível em: uroweb.org
  • Pastuszak AW, Pearlman AM, Reese ST, et al. Testosterone Replacement Therapy in Patients with Prostate Cancer After Radical Prostatectomy. J Urol. 2013;190(2):639-644.
  • Amo Resumos. Manual de Reposição de Testosterona — Edição 2026. 105 p., 31 capítulos. Baseado nas diretrizes mais recentes da AUA, Endocrine Society e estudo TRAVERSE.
  • Ramasamy R, Wilken N, Lipshultz LI, et al. Hematocrit Thresholds for Erythrocytosis Due to Testosterone Therapy: A Systematic Review. J Urol. 2022;208(4):741-748.
  • Dohle GR, Arver S, Bettocchi C, et al. Male Hypogonadism: Guidelines. European Association of Urology; 2022. uroweb.org/guidelines/male-hypogonadism
Nota: Este documento foi elaborado com fins exclusivamente educacionais, baseado em diretrizes publicadas e revisões sistemáticas. Não substitui o julgamento clínico individualizado. Toda decisão terapêutica deve ser tomada com avaliação médica completa e consentimento informado.