Sumário
Quando Pensar em Hipogonadismo
O diagnóstico de hipogonadismo masculino é clínico e laboratorial. Nenhum dos dois, isoladamente, é suficiente. A presença de sintomas sem confirmação bioquímica — ou a testosterona baixa sem sintomas compatíveis — não justifica o início de terapia de reposição.
Critérios Diagnósticos
São necessários, simultaneamente:
- Sintomas e/ou sinais compatíveis com deficiência androgênica
- Testosterona total persistentemente baixa — idealmente confirmada em 2 dosagens matinais, em dias diferentes
Quadro Clínico
| Domínio | Manifestações | Especificidade |
|---|---|---|
| Sexual | Redução da libido, disfunção erétil, redução das ereções espontâneas/noturnas | Alta |
| Corporal | Redução de massa e força muscular, aumento de gordura corporal (visceral), ginecomastia | Moderada |
| Ósseo | Redução da densidade mineral óssea, fraturas por fragilidade | Moderada |
| Metabólico | Anemia normocítica, síndrome metabólica, resistência à insulina | Moderada |
| Neuropsíquico | Fadiga, irritabilidade, depressão, piora cognitiva, insônia | Baixa |
Investigação Inicial
Figura 1 — Eixo Hipotálamo-Hipófise-Gonadal (HPG)
Painel Laboratorial Recomendado
| Exame | Objetivo / Observação | Coleta ideal |
|---|---|---|
| Testosterona Total (TT) | Exame inicial obrigatório — repetir se baixa | 7h–10h, jejum, 2x em dias diferentes |
| SHBG | Calcula TT livre; importante na obesidade (SHBG ↓) | Mesmo coleta |
| Albumina | Necessária para cálculo da testosterona livre | — |
| Testosterona Livre (FT) | Calculada ou mensurada; útil em SHBG alterado | Calculada via fórmula Vermeulen |
| LH · FSH | Diferencia primário (↑) de secundário (↓ ou inad. normal) | — |
| Prolactina | Hiperprolactinemia = causa de secundário; indica RM | — |
| TSH | Hipotireoidismo pode simular hipogonadismo | — |
| Hemograma / Hematócrito | Segurança: baseline e monitorização de eritrocitose | — |
| PSA | Obrigatório pré-TRT em >40 anos | — |
| Glicemia / HbA1c | Resistência à insulina é causa de hipogonadismo funcional | Jejum |
| Perfil Lipídico | Risco cardiovascular basal | Jejum |
| TGO · TGP · Creatinina | Clearance hepático e renal da testosterona | — |
| Estradiol | Quando há ginecomastia ou suspeita de aromatização excessiva | — |
Primário vs Secundário
A distinção etiológica determina não apenas a conduta, mas também a investigação subsequente e as opções terapêuticas alternativas.
| Parâmetro | Primário (Hipergonadotrófico) | Secundário / Funcional |
|---|---|---|
| Testosterona Total | ↓ | ↓ |
| LH / FSH | ↑↑ (elevados) | ↓ ou inad. normais |
| Origem do problema | Insuficiência testicular primária | Eixo hipotálamo-hipofisário |
| Causas comuns | Orquite, criptorquidia, varicocele, klinefelter, quimioterapia, radioterapia, trauma | Obesidade, AOS, opioides, glicocorticoides, hiperprolactinemia, anabolizantes prévios |
| Causas reversíveis? | Raramente | Com frequência |
| Imagem da hipófise | Não obrigatória | Indicada se: prolactina ↑, TT <150 ng/dL, déficits hipofisários múltiplos |
| Alternativa à TRT | TRT é a primeira escolha | Tratar causa de base primeiro |
Avaliação de Segurança Pré-TRT
Antes de iniciar a terapia, um conjunto de avaliações de segurança é mandatório. A ausência dessas avaliações configura conduta inadequada, independentemente da indicação clínica.
| Área | O que avaliar | Ação se alterado |
|---|---|---|
| Hematológica | Hematócrito basal | Hct ≥52% → investigar e corrigir antes |
| Prostática | PSA + sintomas urinários (IPSS) + toque retal conforme idade | PSA elevado ou suspeita → urologia antes |
| Cardiovascular | Risco CV, eventos recentes (<6 meses), PA, perfil lipídico | IAM/AVC <6 meses → adiar TRT |
| Sono | STOP-BANG, ronco, pausas, sonolência diurna | AOS grave não tratada → CPAP antes |
| Fertilidade | Desejo de paternidade futura? | SIM → não iniciar TRT convencional |
| Oncológica | História de câncer de próstata ou mama | Contraindicação relativa/absoluta |
| Trombótica | TVP prévia, trombofilia conhecida | Avaliar risco-benefício com hematologista |
Fertilidade — Ponto Crítico
Este é, possivelmente, o tema mais subestimado na prática clínica. Médicos e pacientes frequentemente desconhecem o impacto da TRT sobre a espermatogênese.
Mecanismo de Supressão
↓ LH → ↓ testosterona intratesticular → ↓ espermatogênese
↓ FSH → atrofia das células de Sértoli → azoospermia em 40–65% dos casos
Alternativas quando há Desejo de Fertilidade
| Estratégia | Mecanismo | Observação |
|---|---|---|
| hCG (Gonadotrofina Coriônica) | Mimetiza o LH → mantém testosterona intratesticular | Pode ser combinado com TRT ou usado isolado |
| Clomifeno | SERM → bloqueia feedback → ↑ LH/FSH endógenos | Via oral; menos eficaz em hipogonadismo primário |
| Enclomifeno | Isômero ativo do clomifeno; menos efeitos estrogênicos | Off-label; resultados promissores |
| Gonadotrofinas (FSH + hCG) | Estimulação direta gonadal | Hipogonadismo hipogonadotrófico grave |
| Criopreservação de sêmen | Bancar antes de iniciar TRT | Sempre oferecer quando há dúvida |
Contraindicações
| Tipo | Condição |
|---|---|
| Absoluta | Câncer de próstata confirmado ou suspeito não investigado |
| Absoluta | Câncer de mama masculino |
| Absoluta | Desejo de fertilidade imediata (sem estratégia alternativa) |
| Relativa | Hematócrito ≥54% — investigar e corrigir antes |
| Relativa | Evento cardiovascular grave nos últimos 6 meses |
| Relativa | AOS grave não tratada |
| Relativa | Insuficiência cardíaca descompensada |
| Relativa | PSA elevado sem investigação urológica adequada |
| Relativa | Trombofilia ou TVP prévia sem avaliação especializada |
Formulações Disponíveis
| Formulação | Via / Frequência | Estabilidade | Ajuste | Custo | Limitações |
|---|---|---|---|---|---|
| Enantato / Cipionato | IM · q1–2s | Moderada | Fácil | Baixo | Picos e vales; menor se q1s |
| Undecanoato de Testosterona | IM · q10–14s | Alta | Difícil | Alto | Manejo específico; ajuste lento |
| Gel Transdérmico | Tópico · diário | Alta | Fácil | Moderado | Absorção variável; transferência para parceiros/filhos |
| Adesivo Transdérmico | Pele · diário | Alta | Fácil | Moderado | Irritação cutânea; disponibilidade limitada no BR |
Objetivos e Metas da TRT
TRT ≠ Ciclo de anabolizante. Doses suprafisiológicas não são reposição.
Metas Laboratoriais
- Testosterona total: 400–700 ng/dL (meio da faixa fisiológica)
- Hematócrito: manter <52%
- PSA: aumento <1,4 ng/mL no primeiro ano ou <0,4 ng/mL em qualquer intervalo de 12 meses
- Sintomas: melhora objetiva e subjetiva documentada
Protocolo de Seguimento
| Momento | Exames / Avaliação | Objetivo |
|---|---|---|
| Baseline (pré-TRT) | Painel completo (Tab. 2) + IPSS + PA + ECG conforme risco | Estabelecer parâmetros; excluir contraindicações |
| 3 meses | TT (coleta no vale, 1–2d antes da próxima dose se injetável) · Hct · Sintomas | Verificar eficácia e segurança inicial |
| 6 meses | TT · Hct · PSA (se >40 anos) · PA · Lipídios | Ajuste de dose; primeira avaliação prostática |
| 12 meses | Painel completo · PSA · toque retal conforme indicação · DMO se osteoporose | Reavaliação anual completa |
| Anual (manutenção) | TT · Hct · PSA · Sintomas · PA · Perfil metabólico | Vigilância contínua |
Hematócrito — Marcador Central de Segurança
A eritrocitose é o efeito adverso mais clinicamente relevante da TRT. A testosterona estimula a eritropoiese via EPO renal e ação direta na medula óssea.
Investigação da Eritrocitose em TRT
- Apneia obstrutiva do sono (AOS) — principal causa concomitante
- Tabagismo e doença pulmonar obstrutiva crônica
- Hipóxia crônica (altitude, cardiopatia)
- Desidratação
- Dose excessiva de testosterona
- Policitemia vera (rara — excluir com JAK2)
| Hematócrito | Conduta Recomendada |
|---|---|
| < 48% | Continuar TRT conforme protocolo |
| 48 – 51% | Monitorizar com mais frequência (3/3 meses); investigar AOS e tabagismo |
| 52 – 53% | Reduzir dose ou aumentar intervalo; tratar causas secundárias |
| ≥ 54% | Suspender TRT; investigar todas as causas; flebotomia se sintomático; reiniciar com dose menor após normalização |
Próstata e PSA
A relação entre TRT e câncer de próstata foi historicamente superestimada. A evidência atual não apoia a hipótese de que a TRT causa câncer de próstata de novo, mas pode estimular tecido prostático pré-existente e acelerar a manifestação de doença subclínica.
Critérios de Alerta para PSA em TRT
- PSA > 4,0 ng/mL em qualquer momento
- Aumento > 1,4 ng/mL no primeiro ano de TRT
- Aumento > 0,4 ng/mL em qualquer intervalo de 12 meses
- Velocidade de PSA > 0,75 ng/mL/ano
- Sintomas urinários obstrutivos novos ou progressivos
O PSA pode elevar-se discretamente (0,3–0,5 ng/mL) nos primeiros meses de TRT — essa elevação é considerada esperada. O que importa é a velocidade e o padrão de elevação, não apenas o valor absoluto.
Risco Cardiovascular e Estudo TRAVERSE
O estudo TRAVERSE (New England Journal of Medicine, 2023) avaliou 5.246 homens com hipogonadismo e alto risco cardiovascular, randomizados para TRT gel vs. placebo por uma mediana de 22 meses.
Resultado primário: TRT não aumentou o risco do desfecho cardiovascular composto (MACE — morte cardiovascular, IAM não fatal, AVC não fatal) na população estudada.
Importante: houve aumento de fibrilação atrial, TEP e TVP nos homens em TRT. O resultado não valida o uso para "saúde cardiovascular" — valida a segurança quando corretamente indicado e monitorado.
Interpretação Correta
- TRT não protege o coração
- TRT, quando corretamente indicada, não causa infarto (na população estudada)
- Eventos específicos (FA, TEP) merecem atenção — especialmente em pacientes de alto risco
- Pacientes com IAM/AVC recente (<6 meses) foram excluídos do TRAVERSE — não há dados de segurança para esse grupo
Benefícios Esperados
| Desfecho | Consistência da evidência |
|---|---|
| Libido e função sexual | Alta |
| Ereções espontâneas e noturnas | Alta |
| Massa muscular magra | Alta |
| Densidade mineral óssea | Alta |
| Anemia relacionada ao hipogonadismo | Alta |
| Composição corporal (↓ gordura visceral) | Moderada |
| Força muscular | Moderada |
| Humor e sensação de energia | Moderada |
| Longevidade / anti-aging | Não demonstrado |
| Prevenção cardiovascular | Não demonstrado |
| Ganho muscular comparável a anabolizantes | Não esperado em doses fisiológicas |
Efeitos Adversos
| Efeito Adverso | Frequência | Conduta |
|---|---|---|
| Eritrocitose / policitemia | Comum (até 25%) | Ver Cap. 10 |
| Supressão da espermatogênese | Muito comum | Discutir pré-TRT; hCG se necessário |
| Redução do volume testicular | Comum | Informar paciente; hCG pode atenuar |
| Acne e oleosidade | Comum | Ajuste de dose; cuidados locais |
| Ginecomastia | Incomum | Verificar estradiol; reduzir dose |
| Edema periférico | Incomum | Verificar insuficiência cardíaca |
| Piora de AOS | Possível | Tratar AOS antes ou simultaneamente |
| Alteração do PSA | Comum (leve) | Monitorizar conforme protocolo |
| Fibrilação atrial / TEP | Risco aumentado (TRAVERSE) | Atenção em pacientes de alto risco |
Fluxograma de Decisão Clínica
STOP-BANG: 6/8 · Ronco + pausas relatadas pela esposa
IMC: 32 kg/m² · HbA1c: 6,2% · PA: não citada
Hormônios (7h30, jejum):
TT (1ª) ........ 218 ng/dL
TT (repetição) . 231 ng/dL
SHBG ........... 18 nmol/L (baixo)
Albumina ....... 4,4 g/dL
LH ............. 2,1 UI/L
FSH ............ 2,4 UI/L
Prolactina ..... 11 ng/mL (normal)
TSH ............ 2,1 mUI/L (normal)
Hct ............ 48,7%
PSA ............ 1,1 ng/mL
- Polissonografia / teste domiciliar para AOS
- CPAP se AOS confirmada
- Perda de peso (GLP-1 se indicado, dado HbA1c 6,2%)
- Calcular testosterona livre (SHBG baixo altera interpretação)
- Reavaliação em 3–6 meses; se TT persistir baixa → TRT com monitorização rigorosa do Hct
IAM há 4 meses · Clinicamente estável
Medicações: estatina · AAS · betabloqueador
IMC: 27 · Ronca, AOS não investigada · Não fumante
TT (1ª) ........ 178 ng/dL
TT (repetição) . 184 ng/dL
LH ............. 24 UI/L (ELEVADO)
FSH ............ 31 UI/L (ELEVADO)
SHBG ........... 42 nmol/L
Prolactina ..... normal
Hct ............ 55,8% ⚠
PSA ............ 2,1 ng/mL
HbA1c .......... 5,7%
🔴 Hct = 55,8% — já acima do limite de intervenção sem TRT exógena ainda.
🔴 IAM há 4 meses — dentro da janela de 6 meses pós-evento cardiovascular agudo.
- Investigar eritrocitose: AOS (alta suspeita), hipóxia, eritrocitose primária (JAK2)
- Estudo do sono urgente
- Seguimento cardiológico; otimizar risco CV
- Reavaliação: após ≥6 meses do IAM + Hct normalizado + AOS tratada → discutir TRT
A sequência correta é sempre: diagnóstico → contraindicações/riscos → corrigir riscos → tratar quando seguro.
TT ......... 205 ng/dL
LH ......... 1,8 UI/L
FSH ........ 2,1 UI/L
PSA ........ 0,8 ng/mL
Hct ........ 43%
TT ......... 540 ng/dL ✓
PSA ........ 2,4 ng/mL ⚠
Hct ........ 47%
Sintomas ... estável, bem
Aumento absoluto: 0,8 → 2,4 = +1,6 ng/mL em 10 meses.
Critério de alerta das diretrizes: aumento >1,4 ng/mL no primeiro ano → encaminhamento urológico obrigatório.
- Não suspender TRT imediatamente sem avaliação urológica
- Encaminhar ao urologista com urgência moderada
- Urologista solicitará: PSA livre/total, PSA-D, biópsia conforme risco
- Se biópsia negativa e PSA estabilizado → retomar TRT com monitorização intensificada (PSA a cada 3 meses por 1 ano)
Referências Bibliográficas
- Lincoff AM, Bhasin S, Flevaris P, et al. Cardiovascular Safety of Testosterone-Replacement Therapy. N Engl J Med. 2023;389(2):107-117. doi:10.1056/NEJMoa2215025 [TRAVERSE Trial]
- Mulhall JP, Trost LW, Brannigan RE, et al. Evaluation and Management of Testosterone Deficiency: AUA Guideline. J Urol. 2018;200(2):423-432. doi:10.1016/j.juro.2018.03.115
- Bhasin S, Brito JP, Cunningham GR, et al. Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103(5):1715-1744. doi:10.1210/jc.2018-00229
- Salonia A, Bettocchi C, Carvalho J, et al. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health. European Association of Urology; 2023. Disponível em: uroweb.org
- Pastuszak AW, Pearlman AM, Reese ST, et al. Testosterone Replacement Therapy in Patients with Prostate Cancer After Radical Prostatectomy. J Urol. 2013;190(2):639-644.
- Amo Resumos. Manual de Reposição de Testosterona — Edição 2026. 105 p., 31 capítulos. Baseado nas diretrizes mais recentes da AUA, Endocrine Society e estudo TRAVERSE.
- Ramasamy R, Wilken N, Lipshultz LI, et al. Hematocrit Thresholds for Erythrocytosis Due to Testosterone Therapy: A Systematic Review. J Urol. 2022;208(4):741-748.
- Dohle GR, Arver S, Bettocchi C, et al. Male Hypogonadism: Guidelines. European Association of Urology; 2022. uroweb.org/guidelines/male-hypogonadism